Somos seres curiosamente interessados por marcas. Gostamos de grifes, tipos de carro e marca de objetos que consumimos. Gostamos de marcar os outros com nossa visão de mundo, e de ser também por eles marcados. O ritual do nascimento é cercado de muitas marcas: recebemos um nome que nos identifica, um registro civil que nos faz cidadãos, um batismo que nos filia a uma religião, sobrenomes que nos fazem pertencer a um grupo familiar. As marcas prenunciam essa pertinência, que é tão preciosa e imprescindível ao ser humano. A pertinência é nossa raiz, é nossa base. Ela nos garante que não estamos sós no mundo, e indica que integramos um grupo que nos acolhe e nos ama.

Na família, os pais deixam suas marcas nos filhos, inscrevem em seus corpos e em suas almas, estilos de vida, ambições, valores e projetos, e também sintomas indesejáveis. Os filhos absorvem, com carinho, submissão, constrangimento, até que, revoltados ou resolvidos, partem em busca de si mesmos, embora já definitivamente marcados pelos pais. Por mais ambivalente que isso pareça, todo filho quer ter as marcas do pai, quer sentir-se alvo de seu interesse, e mesmo com um custo emocional, quer reconhecer em si feições desse pai.

O pai marca o filho de muitas formas, até mesmo com sua ausência, sua indiferença, sua desatenção, seu desamor. Essas são marcas negativas, indesejáveis e prejudiciais ao desenvolvimento saudável de qualquer pessoa. Talvez a marca mais insuportável seja aquela da negação do próprio nome ao filho. De modo construtivo, o pai marca profundamente seu filho, com sua palavra, olhar de reconhecimento, presença, elogio, cuidado, amor, interesse pelos projetos futuros, ternura, firmeza, sua capacidade de dizer sim e de dizer não. Todo ser humano precisa reconhecer-se nos pais e ser por eles reconhecido. Todo filho necessita dos braços e abraços de seu pai, para sentir-se capaz de enfrentar o mundo, para que não congele no peito a capacidade de amar os filhos que terá amanhã. “Se há homens distanciados de seus corpos, isso se deve à falta de contato físico com o pai”, Sócrates Nolasco.

Na cultura, sempre se falou mais do pai, como provedor, do que como um ser marcante para a construção da personalidade do filho. Nas diversas culturas, o lugar do pai, o nome do pai, representa, encarna, simboliza a lei, ordem, segurança, confiabilidade e a sustentabilidade. Pai é, ou deve ser, uma espécie de porto seguro para qualquer filho. Talvez, até, essas referências tenham fomentado um modelo de ser homem e de ser pai, calcado na apologia da dureza, valentia, coragem e da força, gerando-se com isso dificuldades de incorporação de modelos de homens ternos e pais companheiros.

Os filhos carecem das marcas de uma boa relação com o pai. Boa relação não é permissiva, mas ordenadora de valores, gestos e ações. Os filhos precisam da certeza de que são membros amados de uma família. Caminhantes que são rumo à vida, levam valores e sentimentos, como marcas que não se apagam, e que servem de bússola nas situações difíceis do próprio viver.