Em nome da tradição, muitas pessoas ainda casam no mês de maio. Casar em maio é chique, demonstra até maior poder aquisitivo, é o mês em que há o maior faturamento em alguns bufês, é quando as famílias gastam rios de dinheiro com banquetes e festas para unir os noivos e noivas. Porém, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há três décadas dezembro é o mês preferido das noivas e noivos, seguido de setembro e maio. A mudança da época tem explicação econômica, tem a ver com os gastos que a cerimônia de casamento traz. Os noivos e noivas conseguem unir nesse período o décimo terceiro salário, férias e outros benefícios e, nesse sentido, a tradição vai ficando pra trás.
Não importando o mês do casamento, o que vemos é que, alguns meses ou poucos anos depois, o dezembro, janeiro, maio, abril se tornam despedaçados, já não há o que comemorar. À medida que o casal vai convivendo começa a se perceber, a se diferenciar e a enxergar que o cônjuge não corresponde às suas expectativas e sonhos. Ambos, frustrados em suas expectativas muitas vezes impossíveis de serem realizadas separam-se, retiram-se da estrutura e partem para novas relações em busca da felicidade almejada.
Para onde formam as noivas e noivos apaixonados que fizeram juras de amor e fidelidade publicamente, até que a morte os separasse (sem falar no significado da troca de alianças e do beijo ao final da cerimônia)? Para onde foram o sonho de “foram felizes para sempre”, como nos contos de fadas? Onde anda a certeza que fez com que decidissem a união (até porque quem casa, teoricamente, acredita que o seu casamento dará certo, o que não dá certo é o casamento dos outros) Por que muitas histórias de amor acabam quando os amantes se juntam?
Sem correr grandes riscos, podemos afirmar que quando duas pessoas se casam ou resolvem viver juntas, sejam do mesmo sexo ou de sexo diferentes, acreditam que terão uma união duradoura e de qualidade em termos de satisfação para ambos; enfim, desejam ser felizes. Como num passe de mágica ambos serão um só, passaram a compartilhar além da mesma cama, os mesmos valores, gostos e hábitos até mesmo têm consciência que terão algumas dificuldades e diferenças (surgem cedo ou mais tarde, todos os relacionamentos, sem exceção, encontram momentos de dificuldades). Após a lua – de – mel, o casal passa a se conhecer de uma forma que antes não era possível, através do relacionamento diário.
Quando “juntam as escovas”, os amantes já vêm embalados em um clima de segurança, disponibilidade, encantamento, fantasias, sonhos, desejos, expectativas, (conscientes e inconscientes) principalmente, vêm cheios de amor pra dar, estão convencidos de que o amor que os une irá fazer com que vençam todos os obstáculos e diferenças e que irá superar tudo. Entretanto, embora o amor seja uma força poderosa que faz com que os amantes se apóiem mutuamente em busca da satisfação conjugal, ele em si mesmo não configura a substância fundamental para manutenção e crescimento do relacionamento, ele tem que vir acompanhada de um conjunto de habilidades, vontades e qualidades pessoais que vão dar o tom ao relacionamento.
O que temos aí como pano de fundo que contribui para esse clima de romantismo e sonhos é o efeito do amor romântico que está diretamente ligado à ideia do amor perfeito, à felicidade eterna, ao êxtase. O amor romântico inaugura a ideia de completude, que o outro irá nos completar física e emocionalmente. Iludem-se que os dois serão um só e que, após a cerimônia de casamento, serão felizes para sempre. Idealiza-se o par amoroso e a relação. Assim, não haverá angústias, frustrações, nem desapontamentos.
Construímos um retrato do casamento e principalmente uma ideia de amor baseados em um mito que é permeado de idealizações, projeções reforçados e inspirados em ideais amorosos medievais contidos nos principais contos de fadas, perpetuados e reproduzidos pelas histórias de amor, novelas, cinemas e músicas. O amor romântico, ligado ao amor-paixão e amor verdadeiro, não é construído na relação com a pessoa real, mas sobre a imagem que se faz dela. Sobre uma ideia de amor que as pessoas trazem consigo o que torna ainda mais difícil lidar com os problemas e dificuldades que surgirão. Após a lua-de-mel surge uma oportunidade para o casal se conhecer de uma forma que antes não era possível, através do relacionamento diário. Não nos ensinaram que no dia-a-dia de um casal moderno, ocorrem dificuldades, desapontamentos e frustrações de difícil conciliação com as numerosas expectativas românticas que as pessoas trazem para o casamento por estarem apaixonadas.
Uma das grandes queixas nos consultórios de terapia de casal, principalmente das mulheres, é a insatisfação da conjugalidade decorrente do reconhecimento da mudança na relação depois de algum tempo de casado em que muitas o casal entra em desespero por acreditar e perceber que “você não é mais o mesmo” “não foi com essa pessoa que eu escolhi para viver minha vida”, “você não é quem eu pensei que fosse”, ou mesmo “fizemos a escolha errada”. Quando as expectativas são frustradas, logo o parceiro é visto como um estranho. Duvidamos do outro, do relacionamento e até mesmo de nós diante de tais percepções e desilusões.
A ideia do amor romântico, culturalmente transmitida / internalizada, através dos tempos, é frequentemente mais atraente e alimentada para a maioria das mulheres e não pela maioria dos homens, embora no galanteio e na fase de conquista os homens se comportam como o namorado romântico e ideal e após o casamento a mulher necessita que ele demonstre seu amor romântico cotidianamente como prova de amor. O homem, muitas vezes não pode manter esse papel e o desencanto da mulher diante do comportamento do parceiro constitui-se como uma das formas de descontentamento conjugal.
Embora esse tipo de amor comece a sair de cena, ainda se manifesta e habita de forma marcante em nossa cultura. É exaltado pela mídia e está presente na vida cotidiana de todos nós. Através de nossas representações do ideal de amor romântico, homens e mulheres elegem esse tipo de amor como modelo para os relacionamentos afetivos (embora vivenciando de forma singular) e considerem como a única forma certa de amar, uma forma que acarreta muito sofrimento aos parceiros.
Temos que pensar no casamento não como um conto de fadas. Aliás, pensá-lo dessa forma é uma utopia, é fugir da realidade, e de uma realidade falseada. É talvez a melhor maneira de encontrar muito cedo a falência do casamento, é desperdiçar de perceber o casamento como um projeto de vida a dois que envolve além de amor, tesão, confiança, uma complexidade e contradições à lidar na conivência. Quando buscamos as razões e os motivos profundos que contribuem para as grandes dificuldades no relacionamento e pudermos enxergar a si e ao outro, como pessoas reais com qualidades, diferenças significativas, que teremos que conviver (se for essa a escolha), ou melhor, aprender a amar, compartilhar, repartir, confiar, tolerar, ajudar, criar, entender.
Casamento é como uma coreografia, uma dança relacional com algumas de as suas peculiaridades. Inicialmente eu preciso ter disposição, vontade e interesse para dançar, pelo simples fato de escolher um parceiro diferente de mim. Preciso também aceitar o outro como parceiro ( o que não é fácil pelas diferenças) e a partir daí preciso criar os movimentos, coordenar passos, verificar quais os passos que estão dando certo e os que não estão, fazer ajustes, superando obstáculos, criando um estilo para dançarem juntos, embora saibam dançar separados. Alguns casais conseguem dançar com leveza, reciprocidade, cumplicidade, beleza, conseguindo amadurecer, e terem sucesso nessa dança, mesmo que de vez em quando tropecem. Alguns perdem o ritmo, desistem de dançar, e vão a procura de novos parceiros, alguns continuam dançando com muitos passos incertos, esquecem os passos combinados e se perdem nessa dança… Talvez possamos construir novas formas e ideias de amar mais realistas e mais possíveis mesmo com as contradições que isso implica, sem a idealização de um relacionamento impossível de existir e com a vontade de acertar. Syrleine Penaforte – Psicóloga individual, casal e família.